WHO IS SHE?

Do luxo ao lixo.

Miniatura no estado original, 09 de Setembro de 2018, e depois da limpeza

Mês passado passeei em SP e comprei uma lembrancinha - um retrato em miniatura achado numa garagem do Bixiga. Apesar de velha e suja, vi qualidade na peça. Ainda mais comparada com as tranqueiras que eu vi por lá:

Um mês depois, curioso pra olhar a pintura de perto, fui abrir a peça - Queria saber se era uma antiguidade ou tranqueira de 1920-40. Se era uma “francesa genérica” ou se era uma francesa de original. E daí começou uma tour no Instagram. Foi legal, recebi dicas e feedbacks, e salvei tudo num destaque “who is she?”.


Abertura e Limpeza/Opening and Cleaning

O verso do quadro tinha um papelão pregado que não fazia parte do conjunto. Removi. Por baixo dele, o fundo original, de jornal. Na frente a redoma é de vidro, a miniatura pintada em osso. Limpei a moldura e o vidro com microfibra, e tirei a poeira da mulher usando um pincel seco.


Moldura e Fundo/Frame and Back

A miniatura foi pintada em osso, e a redoma que a cobre é de vidro, então supus que a moldura, se original, também foi feita com material bom, e não plástico.

Achei vários sinais de que a miniatura não é coisa do nosso século, com a confirmação no verso:

O jornal colado no verso da miniatura é o Clef du cabinet des princes de l'Europe, escaneado e arquivado pela Biblioteca Nacional de Luxemburgo Online. Luxemburgo é um país vizinho da França. Combinou com a cara de francesa dela.

Europa nos 1700s/18th Century Europe

Alem do titulo completo, dava pra ler um pouco da data do jornal - Décembre ___6., e o número das páginas 422 e 4__. Pesquisei as edições de Dezembro das décadas terminadas em 6, e achei as correspondências em na edição de Dezembro de 1756. O jornal/folhetim consistia de noticias sobre politica e tambem fofocas de época, o que deu uma dica pra procedência e círculo social da mulher no retrato.

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Daí passei a tentar traduzir um papel que acompanhava a pintura, uma etiqueta, com uns rabiscos. Suspeitei que o nome e data foram escritos recente, porque parecem de lapiseira, talvez só uma notinha dizendo quem é o dono do retrato, como em primeiras páginas de livro. Mas aí pesquisei e aprendi que lapiseiras já existiam nos 1750, então “Madame Sophie” e “1779” pareciam apontar pra identidade da própria.


Modas/Fashion

A primeira coisa que me passou na cabeça quando eu vi a miniatura na garagem foi que ela era a cara das princesas do MASP, pintadas pelo Nattier. Se eu não comprei uma francesa, comprei alguém com cara de francesa. Francesíssima.

Mesmo cabelo, mesmas modas. Por causa da cara e do jeito dela, concluí que se era um retrato de socialite, ela não era austríaca, escandinava, alemã e nem russa. O jornal de Luxemburgo no verso e o nome Sophie escrito em anexo confirmaram o óbvio.

Logo depois de descobrir essa “Madame Sophie”, um amiguinho disse que googleando “Madame Sophie 1779” saía uma dona com a mesma cara e pose da miniatura. Fui conferir e -surpresa!, era praticamente uma xerox das princesas do MASP porque foi irmã delas!

Madame_Sophie_de_France_en_vestale_(après_1748).jpg

Sofia de França, filha de Luís XV de França. Também pintada por Nattier.

Signature_of_Princess_Sophie_(Philippine_Élisabeth_Justine)_of_France,_Madame_Sophie_in_1753_at_the_marriage_of_the_Prince_of_Condé.png

Sophie tem uns poucos parágrafos na Wikipedia, os editores resumindo que a fia nasceu e ninguém viu, morreu e ninguém deu falta. Tudo faz sentido. Tão esquecida pela história que terminou numa garagem em SP, e não no museu junto com as outras. Agora a acolho em minha humilde residência.